Comentário sobre Mateus 17:21 e a Prática do jejum para o Cristão Irmã Alice Lages (2011) O texto de Mateus 17:21 é entendido por muitos como expressão de que o jejum (de comida e bebida) é imprescindível para a realização do ministério cristão. É interessante, no entanto, observamos alguns detalhes em relação ao texto e em relação ao uso de texto bíblico para base de doutrina e prática. 1. Existem 3 relatos do mesmo incidente no Novo Testamento: Mateus 17.14-21 Marcos 9.14-29 Lucas 9.37-42 Leia os 3 relatos. Note que nos três textos em relação à inabilidade dos discípulos curarem o menino a ênfase de Jesus é na falta de fé destes discípulos. Inclusive o carão que eles levam de acordo com Lucas é muito forte. Veja o verso 41. Jesus classifica os discípulos de incrédulos e perversos! 2. Mesmo em Mateus e Marcos, a afirmação de Jesus em relação ao Jejum é um comentário e não uma ordem. 3. Os estudiosos mais confiáveis da Bíblia nos ensinam que não devemos basear uma doutrina, nem nossa prática cristã em uma ou duas afirmações bíblicas a não ser que sejam ordens diretas de Deus ou Jesus para todos os discípulos. Sobre a prática do jejum de modo geral, ofereço os seguintes textos com meus próprios comentários e observações para sua reflexão: Antigo testamento Isaías 58 (atenção especial aos versos 6-7) O povo de Deus jejuava bastante, mas não via nenhum resultado disto por parte de Deus. O que é que Deus exige? Sugestão: Ao invés de absterem-se de alimento deveriam se abster de praticar o pecado e maldade, principalmente em relação ao próximo. Zacarias 7 e8 (atenção para 7.16-17 e 8.6-7) O que é que Deus exige? Novo Testamento Jesus e o Jejum Mateus 6.16-18 - Jesus está falando a judeus que tem por costume cultural e religioso jejuar várias vezes durante o ano. Ele já pressupõe (não ordena) o jejum e o regulamenta. Aqui temos ordem direta: Você que vai jejuar, faça-o em privado. É algo pessoal e íntimo entre você e Deus. Mateus 9.14-17, Marcos 2.18-22, Lucas 5.33-39 - Os discípulos de Jesus não jejuavam e eram criticados por isto. Remendo novo e vinho novo = minha proposta é a nova não cabe em costumes antigos. Uma história que Jesus contou: Lucas 18.9-14 Observe os versos 12 e 14 – o fariseu jejuava duas vezes por semana, no entanto, quem saiu justificado foi publicado que, pela avaliação dos fariseus provavelmente não jejuava, mas que reconhecia seu estado de pecador diante de Deus. O Jejum em Atos dos Apóstolos: Atos 15.12-21 Neste episódio, Paulo consulta os apóstolos em Jerusalém a respeito das práticas judaicas que deveriam ser exigidas dos crentes de origem gentílica. É interessante notar que, apesar de o jejum ser tão característico da vida e da religião judaica, os apóstolos (de origem judaica)não acharam por bem exigir o jejum dos crentes gentios. Veja os versos 19-20. O jejum nas epístolas Nota: Várias vezes nas epístolas a palavra traduzida por jejum é uma expressão que quer dizer literalmente passar fome. Exemplos: 2 Coríntios 6.5 e 11.27 Não encontramos nas epístolas a recomendação de o crente observar um jejum de alimento e bebida, mas há muitas recomendações de que nos abstenhamos do pecado em suas diferentes formas. Romanos 14.16-17 é interessante. CONCLUSÃO: 1. A Bíblia, se levarmos em consideração o todo, nem exige, nem condena o jejuar, mas nos adverte sobre atitudes ao praticar o jejum de alimentos. 2. Haveremos de fazer distinção entre as práticas que são exigência de Deus e as que são iniciativa humanas em respostas a necessidades puramente humanas ou costumes culturais. 3. Se jejum é abster-se, então devemos considerar que podemos nos abster de outras coisas além de comida e bebida. Certamente devemos escolher o nosso jejum de acordo com aquilo que Deus quer. Que tal jejuar de coisas que nos controlam no lugar de Deus: TV, internet, jogo de azar, fuxico, fantasias inúteis, desejos carnais... 4. A Bíblia é clara em apontar: a. O jejum de alimentos é de iniciativa pessoal e deve ser exercido em privado e não para impressionar os outros. b. Nenhum exercício espiritual (jejuar, dar dízimo, orar, frequentar os cultos) deve substituir a abstinência do pecado. c. Nada devemos fazer para tentar manipular Deus para fazer a nossa vontade, pois ele é soberano e nós é que devemos fazer a vontade dele e viver de acordo com sua orientação nas circunstâncias em que ele nos coloca. d. Nada devemos fazer para tentar merecer o favor de Deus, pois isto seria desconsiderar a sua graça. Devemos, sim, nos esforçar para nos tornamos dignos desta graça. e. Nada devemos fazer como forma de autopunição pelo pecado, pois seria anular o que Cristo fez por nós na cruz. Ele sofreu o nosso castigo.